Thursday, December 15, 2011

catarse


escrevo hoje por catarse.
por necessidade bruta
da palavra, substituta,
que me distraia de amar-te.

escrevo hoje como sempre
nestes gritos vãos e mudos
que se perdem frios e surdos
sem saírem do meu ventre.

escrevo hoje porque apenas
a palavra me liberta
quando o coração aperta
e a memória me gangrena.

escrevo hoje do lugar
fundo onde guardo as dores.
para que, sem o supores,
me liberte p'ra te amar.
 

Thursday, October 20, 2011

luz sombra



baixamos a luz; para que as sombras não reforcem os contornos das coisas. baixamos a luz para nos furtarmos aos detalhes. o diabo está sempre nos detalhes; são os detalhes que fazem de nós quem somos, somas longas de detalhes ao longo do tempo, dos anos.

baixamos a luz para não ver, para que não entrem sombras e contrastes olhos dentro, para que a sala esbatida não se encha de repente de memórias, de passados, cacos de sonhos. o diabo está sempre nos cacos; raramente nos reinventamos inteiros; as rugas não marcam os anos: são linhas finas de cola entre dois sonhos partidos.

baixamos a luz. como se o que se não vê não importasse, como se fechar os olhos criasse uma folha em branco. se o futuro fosse algo que se escreve a cada hora.

e subitamente és tu, por minha mão, quem apaga a luz, abre a janela, e deixa entrar o dia.



Wednesday, September 14, 2011

forma

a tua presença está aqui, como se te tivesses diluído no meu ar. respiro e sabe-me a ti. cada fôlego soa-me à tua voz e ao toque dos teus cabelos. tudo é subitamente tu.

escrevo como se empunhasse os teus dedos e a tinta no papel tinge-se do teu verniz vermelho. as unhas, que agora crescem, cravo-as na minha carne e são as tuas.

não há vazio nem ausência, porque és o ar e és a tinta, e a forma das minhas palavras é a forma do teu corpo.


Sunday, February 07, 2010

 

Sentado a teu longe,
a tremer de ausência,
bebendo sem coerência
a nicotina das palavras.


Sentado a teu longe,
folheando as cartas.
Talvez tu não partas,
talvez eu não morra.


Sentado a teu longe,
fumando o passado,
passado a teu lado
por sítios felizes.


Sentado a teu longe
enforcando a alma.
Cortando, com calma,
as veias da mão.

 

não percebo. não és eu, que me alimento de memórias e de sonhos.

não és eu, que um só carinho consola.

és como o fogo, que segues e gastas e não bebes duas vezes na mesma fonte.

e eu, que sou água, nunca te perceberei

porque eu sou apenas sendo, tu só és em movimento

porque eu sou ficando, tu ficando só te gastas, consomes a terra onde poisas

não te apago por amor; tu só estando perto me consomes e destróis

e não és feliz porque eu não ardo, porque eu não sou como tu

Monday, April 06, 2009

Nada existe para além do oceano
nada mais que o horizonte cabe em mim
e a noite eterna em que sôfrego engano
a eterna dor que me consome e não tem fim.

Nada existe para além daquelas casas
nada mais existe que teres partido
e eu ficado como um pássaro que as asas
dilacera num beiral e é ferido.

Nada existe para além das minhas mágoas
nesta noite em que recordo que tu foste
em meu peito, por momentos, flor nas águas,
um pequeno amor perfeito no meu rosto.


Tuesday, March 10, 2009

Dolora (VIII)

Amei.
E amei tão perdidamente
que no meu amor perdido
me perdi.

A água, dizes,
tudo leva na torrente
mas meu coração partido
está aqui.

6 Julho 1992

Saturday, March 07, 2009

Vem

 

não, não sou um barco errante
buscando um porto de abrigo
e o sorriso dos teus olhos
não é um farol na noite

 

nem serei um viajante
que de algo ande fugido
procurando nos teus braços
um lugar onde repouse

 

se te busco a companhia
se te procuro o olhar
se te olhar com ternura
ou se em sonhos te beijar

 

não será por seres praia
em que eu queira naufragar
mas para ser rio comigo
ir juntos até ao mar

 

não sou de fazer queixumes
sobre o que tenho ou não tenho
nem o que sou se resume
a de onde vou ou venho

 

mas mesmo sem ter desejo
de com quem os passos some
abro os meus lábios num beijo
o que me sai é o teu nome

Cinco anos depois

A compulsão – esta noção de que há algo importante para fazer, para dizer – volta sempre, é sempre nova e sempre a mesma. Depois passa, como o fumo dos comboios na paisagem, numa terra em que o comboio já não traz nem leva ninguém senão memórias.

Tuesday, May 25, 2004

Em época de limpezas, espécie de spring cleaning mas atrasada, reconduzo neste blog alguns dos posts que pari noutro, agora reformado.

Tuesday, May 15, 2001
Another day
by juliao @ 07:50 PM GMT

Today was just another day. Another mood, undistinguished. Another set of silly problems and concerns, another boring day of longing.

And what do I long for? I don't know. Is it for all this to be over? For all what to be over? Nothing is going on, nothing that I can look ahead to and anticipate a change. All the changes are in my hands. And that is, at the same time, good and bad.



Tuesday, May 8, 2001
People, light and the illusion of faces
by juliao @ 06:15 PM GMT


She is pretty. Or isn't she? Or was I just in a sad day when I thought she was pretty?

Sometimes as we grow sadder we long for this something like comfort or warmth or whatever it is. Some times we feel like being close to people, closer to someone. And then we look around and somehow our criteria changes, and we start thinking that she's pretty, and she's pretty, and she's pretty too.

Sometimes we should just go back to sleep.


Monday, April 16, 2001
The sound of words on a non existant paper
by juliao @ 08:02 PM GMT

Why do I write, why do I keep a record?

As if it were a set of pictures of my footprints on some sandy beach, as if I were taking photos because I know the sea will come tonight and wet the prints and make the sand virgin again.

The sea always erases. So does time, like an eternal ocean, like our lives were the beaches time touches, every day, night after night.

Monday, July 07, 2003

acabou-se-me o tabaco vai para mais de meia hora e já não aguento de aqui estar. vou-me embora à procura do tempo que tenho perdido e mais que tudo da minha agenda. como se as coisas não fossem só por a gente não saber...

Thursday, July 03, 2003

de vez em quando sinto esta coisa, a compulsão da escrita. e depois esfuma-se, ou melhor, deixa-se soterrar debaixo do rio das coisas, do amontoar das coisas.

de vez em quando sinto esta idéia, esta vontade de que as letras, a cor da tinta/pixel/pontos/coisas seja um rasto, um rasto de mim nas coisas, a testemunha do rasto das coisas em mim. tudo passa - já sei que tudo passa, já sei que nada mais somos que o nosso rasto nos outros. o livro está escrito, por publicar, um dia publicarei outro que entretanto escreva. a árvore, essa, há de haver, deve haver, algures no rasto das sementes - dos caroços - dos vestígios que vamos deixando nas estradas. a filha, essa dorme, como um anjo/diabo baboso, na cama ali ao lado. crescerá, e será, como é, como ter um filho novo todos os dias.

resumindo, está tudo por fazer.